Cartas
Bom, se alguma coisa que você leu neste sítio deu vontade de comentar, aqui é o lugar pra isso. E se quiser comentar alguma coisa que está faltando, também.
Boa parte da dinâmica e do interesse que possa ter este espaço de discussão do cineclubismo vai depender de sugestões, palpites, críticas, dicas e qualquer outro tipo de contribuição que as pessoas realmente interessadas no tema nos mandem. As quais agradeço de antemão.
(FM)
Caro Felipe,
Acessei o sítio indicado e nele li a cronologia do movimento. Bairrismos à
parte, achei estranho não haver ali menção à figura de Walter da Silveira e
ao Clube de Cinema da Bahia, que ele dirigiu por muitos anos, com ousadia e
grande brilho intelectual, educando, cinéfila e cinematograficamente, uma
geração de jovens baianos e proporcionando à vida cultural de Salvador um
grau de informação e debate que não era comum desde que daqui se foram, na
esteira do golpe militar, e até antes, os artistas de vanguarda trazidos
pelo reitor Edgard Santos. Inclusive lamento pessoalmente não ter chegado à
vida social a tempo de me beneficiar de tudo aquilo. Mais jovem, pude,
contudo, nos anos 70, saber por aqueles um pouco anteriores a mim, o quanto
foi marcante aquela experiência que, aliás, não acabou, embora tenha mudado
de rumo, quando, morto Walter, o clube de cinema passou à direção de Guido
Araújo, que o foi levando, décadas afora.
Um abraço,
Paulo Fábio
Caro Paulo Fábio,
Se houvesse uma desculpa para a omissão a que você se refere, seria o fato de
que eu, velho militante cineclubista, moro atualmente no Canadá e criei este
sítio por causa de uma espécie de renascimento que o movimento cineclubista está experimentando no Brasil. Praticamente tudo que está aqui foi escrito de memória. O sítio apenas começou. Ele pretende dar um pontapé inicial, estimular a participação de outras pessoas com colaborações, material referente à memória do movimento, sugestões, críticas. Dessa forma vai amadurecer, sanando, espero, esses defeitos de origem. Um bom exemplo é a sua mensagem.
Sei muito bem da importância de Walter da Silveira, fundador do Clube de Cinema da Bahia em 1950 e um dos pais do cineclubismo e do pensamento crítico sobre o cinema brasileiro - junto com Paulo Emílio e Alex Vianny, como dizia Glauber Rocha. Fico até envergonhado de ter sido capaz de cometer esse lapso. Eu mesmo sou da geração que retomou esse tipo de atividade no comecinho dos anos 70 e, mais uma vez, a Bahia, com a Jornada de Salvador e com o Guido Araújo, foi fundamental para a rearticulação de um movimento que teria um papel importante na resistência ao regime militar, na defesa do cinema brasileiro e na promoção da cultura fora dos ambientes tradicionais. A Bahia continua tendo uma importante participação nesse começo de reorganização dos cineclubes, sempre com o apoio do Guido Araújo e com Luiz Orlando da Silva, outro grande batalhador, representando o Estado na Comissão de Reorganização do Movimento.
Um abraço,
FM
Prezado Felipe,
Claro que já tomei conhecimento do sítio.
Tenho acompanhado as discussões em torno da rearticulação do movimento e
consegui participar de dois eventos nesse âmbito: a entrevista com o Marco
Aurélio Marcondes que deve sair no próximo número da CineclubeBrasil e a
inauguração do Cineclube Corujão, aqui perto, no Teatro Ruth Escobar. A vida
profissional tem me impedido de tomar parte mais ativa das novas atividades
cineclubísticas. Pretendo contribuir, na medida de minhas escassas
possibilidades e qualidades.
Parece - posso estar enganado - que há um sadio interesse por parte da
moçada de conhecer detalhes da experiência do Bixiga, que, como outros
tantos temas, deve ser debatida e criticada, no bom e velho sentido de
aprender com os erros e os acertos do passado. Conte comigo nessa tarefa.
Neste momento, em que alguns começam a reconhecer a necessidade de recuperar o
gosto pela utopia, nada me daria mais prazer.
Obviamente, ainda não tive tempo de ler todo o material que você colocou no
site – como sempre, seu discurso é copioso e polêmico: vê-se que os anos
fizeram bem à sua saúde intelectual. Mas eu chego lá, não se preocupe. E já
faço uma observação. No item "Cronologia do Movimento Cineclubista
Brasileiro", no texto sobre o ano de 1981, falta dizer que, para o sucesso
do Cineclube Bixiga, também contribuíram decisivamente Diogo Gomes dos
Santos, Ademar de Oliveira e Felipe Macedo.
Frank Ferreira
Obrigado, Frank. É bom, e é importante, tê-lo na roda, contribuindo com o que você chama de suas "escassas possibilidades e qualidades". Tivesse mais gente a sua pouquidade de recursos e o movimento cineclubista seria bem mais rico. Manda brasa, que este sítio espera a sua participação.
Com relação às pessoas que você menciona, que tiveram diferentes formas de envolvimento com o CC. Bixiga, nenhuma delas estava formalmente ligada ao cineclube quando ele foi criado.
E aí, Felipe!!!
Quem diria que há 32 anos, em plena ditadura!!! Quando reorganizamos o movimento, naquele momento tinha em mente e acreditaria na mudança que o mundo sofreu... sofreu não, mudou e acredito, apesar de tudo, para melhor!!! Tá na hora do pessoal, acredito que já podemos ter um distanciamento em termos temporais para uma analise crítica do que fizemos. Não foi pouca merda não!!!
Em relação ao site ainda não li tudo por absoluta falta de tempo. Mas assim que puder tentarei contribuir com alguma coisa.
Em tempo, acho que conseguiríamos os documentos de todas as Jornadas que ajudamos a organizar para colocar no site, principalmente a Carta de Curitiba, que ao meu ver foi um divisor de águas no movimento cineclubista. outra coisa, temos que abris uma sessão para homenagens, tipo, Leon, Glauber, Aloisio, Cosme, Olney e muitos outros.
Ainda continuo com o lema "Cinema é cultura, cultura é liberdade e liberdade é conhecimento!!!
BEIJÃO,
Luiz F. Taranto
É difícil chamar o famoso Mosquito – iniciador do movimento no Rio, diretor da Federação carioca, fundador e diretor do CNC, uma das grandes forças motrizes do cineclubismo sob a Ditadura – de Luiz Fernando Taranto. Mas seja super bem-vindo a estas terras de cineclubismo virtual. Podem ter passado 30 anos, mas nós ainda concordamos: a coisa que eu mais queria ter achado para abrir a seção Documentos era a Carta de Curitiba. Agora vou ficar cobrando sua ajuda para reunir todo esse material de que você fala. E acho ótima a idéia de abrir uma galeria de personalidades que marcaram a trajetória do cineclubismo, não tão somente como homenagem, mas como informação e referencial histórico. Vamos ver se dá…
FM
Caro Felipe...
Como legítimo filho do PROJETO INTERCINE...e representante da MARVADA CARNE (como você pôde constatar em Brasília continuo sendo um forte defensor do interior paulista)... sugiro uma reflexão sobre o projeto...reflita também (e isso deveria ser parte importante da NOSSA autocrítica) sobre o resultado de termos abandonado aquela estratégia... Talvez você não saiba... mas pelo menos alguns CCs gerados pelo projeto continuam atuantes, como é o caso do nosso CREC, cá em Rio Claro, que completará este ano, 18 anos de atividades, quase que ininterruptas... Também acredito que o Cine Teatro dos Ferroviários de Rio Claro criado em 1954 (e que foi dirigido e mantido democraticamente por mais de uma década pelos operários da Cia Paulista de Estradas de Ferro) mereceria ser registrado dentro da cronologia do Cineclubismo brasileiro...
De resto, concordo em grande parte com os termos de SUA autocrítica e também acho que outros deveriam realizar semelhante esforço... Finalmente, sugiro que reflitas sobre a necessidade (que sempre preguei) de os cineclubes e o movimento se engajarem mais firmemente na luta pela DEMOCRATIZAÇÃO DAS COMUNICAÇÕES neste nosso país tupiniquim... afinal, as novas tecnologias (pelo menos no meu entendimento) apontam cada vez mais para a substituição da linguagem cinematográfica propriamente dita, pela linguagem audiovisual ou multimídia, como preferem alguns...
Abraços e saudações cineclubistas do amigo
Pimentel
Pimentel,
Algumas observações e muitos parênteses:
Primeiro, obrigado pelo que escreveu. Tudo que eu queria com esse sítio era dar início a um processo de recuperação da memória cineclubista e a uma reflexão – que em grande parte decorre daquela – sobre a nossa prática, apontando para propostas claras, concretas e, principalmente, abertas, discutidas. As duas coisas que você levantou – o Intercine e o Cine Ferroviário – são exatamente exemplos, de ordens e épocas diferentes, de questões fundamentais para essa reflexão e, particularmente, para o sítio.
O Intercine:
Você fala de fazermos uma reflexão sobre o Projeto. O sítio está começando, não deu pra cobrir um monte de coisas que eu espero poder ir discutindo aos poucos – e principalmente há muitas outras que eu nem soube ver ou lembrar, e que outros proporão e desenvolverão, discutirão. Você é o primeiro que já começou, de fato, a fazer isso. Mas quanto ao Intercine, que não é uma coisa menor e que eu não tinha esquecido, tenho muito problema com material. Eu vejo duas coisas importantes sobre o Intercine, em termos do sítio e também quanto às nossas questões de agora:
1. Seria muito legal ter um texto contando, recuperando a história e as realizações do Intercine, as cidades e entidades que participaram, algumas estatísticas de filmes, público, essas coisas, e o que sobrou como resultado e talvez, por quê. Isso seria ótimo seja para a seção Movimento do sítio – se for mais analítico – como para Os Inesquecíveis, se for mais uma rápida crônica sobre o que foi o Projeto.
2. Outro aspecto importante do Intercine seria disponibilizar o máximo de informação sobre ele, porque a Pré-Jornada vai discutir um plano de reativação do cineclubismo. E esse Plano devia ter sido precedido de uma séria reflexão, de um bom levantamento da situação nacional (pesquise "cineclube" na Internet: o Google dá 13.000 ocorrências; o Yahoo dá mais de 21.000; mesmo dividindo por dez, vinte, você vai ver que tem muito cineclube ou coisa parecida que não faz parte dessa mobilização que estamos vivendo) e de um método amplo de discussão que permitisse que a maioria das entidades REAIS, que existem e trabalham, estabelecessem, decidissem prioridades para formatar um projeto: bitolas, regiões, meios sociais, instrumentos didáticos e de comunicação, etc, etc, etc... Além disso, isso tudo teria que ser cotejado com outras iniciativas – como os projetos que visam apoiar ou criar cinemas independentes, entre outros – na perspectiva de procurar o melhor posicionamento e aproveitamento em termos das necessidades do país, do cinema brasileiro e seu mercado, além das nossas – isto é, dos públicos, das comunidades. Em que pesem os esforços da Comissão Reorganizadora do Movimento, e da muito maior representatividade, creio, desta Pré-Jornada em comparação com a Jornada de meses atrás, acho que qualquer projeto deveria ter sido discutido muito mais amplamente nos meses que mediaram entre uma e outra; esse tipo de Encontro deve ser mais para a discussão e aprovação final.
O Cine Ferroviário:
Achei uma delícia o texto que você me mandou. Mas ele trata também de outras questões, não diretamente ligadas ao nosso sítio. Você não pode escrever uma espécie de cronicazinha com essa história, pegando mais o lado do ambiente ferroviário, a relação com a cidade, as influências que gerou, deixou... Enfim, você saberia fazer isso muito bem. Que tal? Enriqueceria muito o sítio.
Também se pode levantar, noutro diapasão, para a seção Movimento ou mesmo Debates, a questão do cineclubismo no meio operário. Dá pano pra manga.
Democratização das Comunicações:
Democratização das comunicações, pra mim, é o objetivo estratégico dos cineclubes, como acabei de reiterar no texto Autocrítica, atendendo a pedidos. Mas há também uma luta política específica, em vários níveis, em que temos que estar presentes, sem dúvida nenhuma, como você disse. Na discussão – e nos organismos – de televisão, rádio, educação, etc, e incluo aí o próprio cinema brasileiro, o Congresso de Cinema Brasileiro.
Eu acho que o principal passo que devemos dar nesse sentido – de participar amplamente desse debate e encaminhamento (mas também na perspectiva estratégica de que falei) – a nossa tarefa mais imediata, é nos organizarmos enquanto movimento regional e nacional, forte e representativo, para podermos ser ouvidos. Vamos mandar representantes, se e quando pudermos pra tudo quanto é coisa importante que acontecer. Mas a palavra de ordem mais imediata (até a Jornada, né?) é (re)criar federações ou coisas equivalentes nos Estados e/ou regiões e uma nova entidade nacional de cineclubes.
Espero ansioso as suas respostas (e artigos).
Um tremendo abraço e uma grande Pré-Jornada,
FM
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