Apropriação indébita

A sofisticação e centralização crescentes das formas de comunicação faz com que raras idéias consigam ser postas em circulação, hoje em dia, se não encontrarem uma forma de composição com a complexidade de interesses que envolvem a "mídia". A falta de acesso aos equipamentos de produção e sobretudo de divulgação é capaz de produzir um silêncio bem mais eficiente do que qualquer forma de repressão, uma "unanimidade" mais perfeita que qualquer censura.

Mais elaborada e eficiente, porém, e mais essencial na trajetória da luta das idéias, do desenvolvimento da cultura e da civilização, é a apropriação: a assimilação e redirecionamento do que era contestatório no sentido da renovação e fortalecimento do status quo. É possivelmente a forma mais sofisticada (de sofisma: artifício, logro) de aniquilamento de idéias transformadoras e a ferramenta mais essencial para a manutenção e reprodução do estabelecido. De fato, a apropriação é a mecânica fundamental da indústria cultural, que não produz, apenas distribui a cultura.

Mas o que é cultura? Fala-se tanto dela, teoriza-se fartamente, mas um halo esotérico permanece sobre o tema. Classificam-na em vários departamentos, do popular ao erudito, mas sua essência permanece obscura para a maioria das pessoas, presa de uma série de preconceitos que lhe atribuem valores equivocados.

2001: Uma odisséia no espaço, de Stanley Kubrick (1968) E não é tão complicado assim. Cultura, no seu sentido mais amplo, e mais simples, é apenas conhecimento acumulado. Desde o momento em que o primeiro homem das cavernas compreendeu que repetir o ato de enfiar uma semente no solo daria origem ao seu alimento; que determinadas extensões do seu braço eram meios eficientes para a caça, ele passou a acumular conhecimento e erigir sua cultura. E nossa cultura também, a cultura universal, já que esses - e tantos outros - conhecimentos mais básicos acabaram assimilados por todas as "culturas".

É claro que a cultura já não evolui mais com o dedo ou o braço, mas as operações mais complexas, da arte, da ciência e da tecnologia, são apenas formas mais complicadas do ato de conhecer e acumular conhecimento. E conhecer, aprender, por sua vez, é a forma tipicamente humana – não instintiva – de poder reproduzir e progredir nossa intervenção sobre o meio ambiente. O homem atua sobre o meio que o cerca para poder sobreviver: ele trabalha. Cultura é, portanto, decorrência direta e exclusiva do trabalho. Por mais que se sofistique, que se acumulem intermediações entre o ato de transformar a natureza – ou trabalho – e a acumulação de seus resultados sob a forma cultural, ainda assim, toda a cultura continuará sendo conseqüência exclusiva do trabalho.

Esses conceitos nos levam a pensar nas típicas figuras que o senso comum identifica como os grandes "produtores" de cultura, hoje em dia: cientistas, técnicos, artistas. Que são, justamente (e muito simplificadamente), os trabalhadores que realizam as atividades mais próximas dessa idéia básica e original de "transformação da natureza", ou são, pelo menos, os agentes das transformações mais visíveis da realidade.

Ainda laborando com o senso comum, cientistas ou artistas costumam ser esquisitos, rebeldes, diferentes, quando não constituem uma verdadeira ameaça para os "bons costumes". A Igreja os queimou aos milhares, e continua não gostando deles; Estados e Corporações poderosas têm de prendê-los, fisicamente mesmo ou através de todo tipo de subterfúgio, do financeiro ao criminoso; a mídia cria um planeta à parte, simultaneamente esquizóide e paradisíaco, onde vivem os grandes astros e estrelas.

São eles, cientistas, artistas, e muitos outros tipos de trabalhadores, que efetivamente realizam o ato gerador de cultura. Mas não são eles que "entregam" esse trabalho, não são eles os responsáveis pela sua distribuição ao conjunto da população, não são eles que tornam esses acréscimos particulares parte da cultura geral; é a "indústria". As chamadas indústrias culturais, de comunicações, a mídia, o entertainment. Assim, a cultura do conjunto da sociedade se desenvolve a partir do conhecimento real que lhe é agregado como produto do trabalho de muitos, mas a orientação final, o sentido das descobertas e avanços no conhecimento, são moldados conforme os interesses e necessidades das organizações que se apropriam desse trabalho e desse conhecimento antes deles se tornarem públicos, antes de serem distribuídos para todos, antes de serem, efetivamente, cultura.

Quem controla a distribuição controla, afinal, o processo. Mas continua não sendo capaz de produzir o ato gerador de cultura. Na tensão desses dois momentos de processo de conhecimento e cultura é que se situa o palco da maior guerra da Humanidade: de um lado o Trabalho, gerando fatos e idéias e procurando brechas no poder de controlá-los; do outro lado, o Poder (que hoje atende pelo nome de Capital), dono de tudo, mas incapaz de criar e permanentemente ameaçado por novos fatos e idéias que tem de conseguir controlar. A História tem sido uma dialética desses dois momentos, de rupturas (provocadas pelo avanço do conhecimento e da cultura) quase sempre violentas, seguidas de reacomodações controladoras.

Carla Perez, do grupo É o Tchan (1997) Mas essa guerra é permanente e cotidiana, não se trava apenas nos períodos de convulsão social, mas a cada instante, a cada ato que reproduz continuamente o ininterrupto processo cultural. E também explode, freqüentemente, com intensidades variáveis, nos movimentos de renovação artística, de afirmação de direitos, de contestação dos costumes, de organização de setores da sociedade. E, da mesma forma, em cada uma dessas batalhas, está presente essa tensão entre criação e controle.
Assim o rock revolucionário dos anos 60 virou o disco dos anos 70 (com muitos mortos e feridos); a música popular brasileira em geral venceu a batalha pelo espaço midiático com a música industrializada importada, mas sofreu um processo de pasteurização nas engrenagens das gravadoras multinacionais e perdeu, provisoriamente, grande parte do seu ímpeto criativo; assim o cinema brasileiro vai e vem no mercado brasileiro, lastreado na sua capacidade única de colocar nosso povo na tela, mas cercado e assaltado pelas distribuidoras estado-unidenses.

E assim também se deu a participação dos cineclubes – algumas vezes involuntária ou inconsciente – não apenas na trajetória do cinema, mas em diversos outros setores da sociedade brasileira. Exemplos dessa dialética cineclube-cinema estão no artigo seguinte, Matou o cineclube e foi ao cinema. Da distribuição clandestina ao grande circuito exibidor, também aborda essa questão.

Felipe Macedo