Hegemonia e Cineclube

Este texto foi escrito há cerca de 20 anos. Relendo-o, quase chego a corar com alguns momentos de ingenuidade, outros de pretensão; uns trechos simplistas, outros meio gongóricos. O tom é o de um artigo cuja intenção era polemizar, meio didaticamente, com a então diretoria do CNC e outras tendências que havia no movimento em 1985 (Não reproduzo aqui a parte final do texto, que justamente discute coisas muito pontuais que estavam acontecendo naquele momento). A linguagem, também, é super "datada" – quantas vezes aparece a palavra estrutura! – e bem fora de moda nestes tempos de maximização de sinergias liberais. Mesmo assim, ainda considero que ele traz questões fundamentais para a reflexão de qualquer cineclubista. Pode-se falar de proletário, operário, trabalhador, assalariado, tratar da burguesia, do empresariado ou mesmo da iniciativa privada – as relações sociais continuam essencialmente as mesmas. Redigido numa época em que o vídeo engatinhava, a internet era uma curiosidade, não se falava em rádio comunitária – no máximo rádio-patrulha – e multiplex seria confundido com fixador de cabelo, o texto fala justamente de como é inerente ao cineclube descobrir novas formas de organização e encontrar novas frentes e novos modos de atuação, desde que se mantenha como uma instituição democrática, sem fins lucrativos e comprometida com as maiorias.

O conceito gramsciano de hegemonia é a questão ideológica central que hoje separa tão agudamente as diferentes correntes políticas do movimento cineclubista brasileiro. Ainda que algumas delas não percebam isso claramente.

Este artigo pretende, então, explicitar a nossa posição quanto ao problema, mostrando, também, como se colocam com relação a ele as demais tendências do movimento.

Há vários livros sobre a obra de Antonio Gramsci. Muitos deles tratam exaustivamente - e alguns exclusivamente - do conceito de hegemonia. Além da obra do próprio, temos "A Favor de Gramsci", de Maria Antonieta Macchiochi; "O Conceito de Hegemonia em Gramsci", de Luciano Gruppi, para citar apenas dois que me ocorreram de imediato. Várias obras de Carlos Nélson Coutinho, Leandro Konder e Ferreira Gullar trazem fortes influências do pensamento gramsciano e, particularmente, utilizam o conceito de hegemonia (e outros conceitos importantes que também devem ser creditados ao pensador marxista italiano, como o de "bloco histórico", "nacional popular", etc) nas suas tentativas de compreender a realidade brasileira. Nessa companhia eu fico até temeroso de vir aqui tentar resumir o que é hegemonia ou mesmo ter a pretensão de estabelecer a sua ligação com o cineclubismo, de maneira peremptória e definitiva. Mas vamos lá, sabendo os companheiros que me lêem que isto é apenas uma esquematização rápida e despretensiosa. Qualquer um desses dois temas merece um ou mais livros inteiros. Também não vamos cair aqui em detalhamentos, necessários ao maior rigor científico, mas que são tratados volumosamente pelos autores citados e que teriam aqui um sabor de pretensão e uma chatice acadêmica que o movimento cineclubista certamente não engole.

Foi Lênin que tornou universalmente conhecidos o conceito e a expressão "ditadura do proletariado", entre outras coisas para descrever a organização do poder político durante a fase em que a classe operária, na direção das demais classes que a ela se aliam para combater o sistema capitalista, dirige o processo de transição para o comunismo. Depreende-se daí que, antes disso, vivemos numa "ditadura da burguesia", pois é ela que dirige e domina as demais classes no sentido de preservar o seu modo de produção e de vida. Note-se que, antes ainda, a burguesia, para implantar a sua "ditadura", dirigiu o processo revolucionário que destruiu o feudalismo, comandando inclusive, nessa luta, os próprios embriões da classe operária que já existiam, mas não tinham condições de formular, eles próprios, os elementos necessários para levar a revolução burguesa mais adiante.

Marx Operário Estas afirmações estão baseadas em fatos científicos estabelecidos antes ainda, por aqueles dois velhinhos simpáticos, Marx e Engels, segundo os quais as classes sociais se definem segundo seu papel no processo produtivo; que daí decorre a formulação de sua ideologia, isto é, do conjunto de valores que compõem a sua "visão de mundo" e serve para criar, organizar e sustentar toda a superestrutura jurídica, política, religiosa, etc, e cultural, que explica e legitima exatamente esse seu papel no processo produtivo; o seu e o das demais classe. Para eles existem duas classes fundamentais; uma que detém os meios de produção e outra que vende a sua força de trabalho, pois é a única coisa que tem.

Na análise da evolução do capitalismo em seus diversos estágios, até a etapa do imperialismo - que Lênin localiza como seu último estágio antes do advento do socialismo - ficou claro que nesses dois campos prevalecem, de um lado a burguesia industrial e financeira, e de outro, o operariado fabril. Nos seus respectivos lados essas duas classes sociais representam a relação mais essencial do modo de produção capitalista e, por isso, são os setores mais avançados e organizados de cada lado. Sob a batuta da primeira seguem os proprietários de terras, os comerciantes, etc, que cada vez menos se distinguem da relação capitalista tal como é estabelecida na indústria. Da mesma forma se aliam aos operários, muito mais experientes e organizados, os camponeses - que também se tornam cada vez mais operários do campo - e todos os assalariados empregados de outras formas na produção.

No meio ficam os setores denominados brilhantemente de setores médios. Nessa categoria vasta devem nos interessar particularmente os "intelectuais". O que vai desde os poetas como Bertold Brecht - que tem sido muito citado - até os engenheiros, administradores, padres, freiras, etc. E também ficam no meio os indivíduos, porque indivíduo não é classe social, e tem muito operário sem-vergonha ou burro, assim como a maioria dos dirigentes revolucionários de renome foram traidores da burguesia: intelectuais e até empresários, como o bom e velho Engels. Esse "meio", de certa forma, oscila entre os dois lados, conforme o que Gramsci chamava de "superioridade intelectual e moral" da classe que o atrai; conforme, naturalmente, os benefícios e estímulos, prejuízos ou punições que acarretem a sua adesão a esta ou aquela ideologia, a esta ou aquela classe.

Mas Lênin utilizou a expressão ditadura do proletariado no meio do fogo da Revolução. Seus escritos que abordam a questão cultural, embora não caiam em generalizações mecânicas, estão normalmente voltados para os problemas concretos e mais imediatos. Gramsci, ao contrário, escreveu a maior parte da sua obra em cana, sob o fascismo, e tende a examinar mais acuradamente as nuanças dos desdobramentos da realidade. O primeiro escrevia para os sovietes que iam deliberar, para as plenárias; o segundo teorizava para a futura democracia italiana. Mas o próprio Gramsci via uma enorme proximidade entre seu conceito de hegemonia e o de ditadura do proletariado.

O conceito de hegemonia procura descrever a dialética de domínio e direção, os dois elementos necessários para que uma classe seja dominante numa sociedade.

Em outras palavras, uma classe domina as demais sobretudo por dispor de um aparato de coerção, quase sempre ligado ao Estado, constituído pelo monopólio da força: polícia, exército, eventualmente massas armadas. Este seria, então, o terreno da função de domínio da sociedade.

Mas, como todas as ditaduras ilustram muito bem - e a brasileira em particular - apenas a força não é suficiente para assegurar uma estabilidade permanente. Os regimes baseados exclusivamente neste elemento de coerção têm maior ou menor duração histórica, mas sempre acabam por se desintegrar. Assim, uma classe (ou bloco de classes) que pretende ocupar uma posição dominante na sociedade tem de ser capaz de apresentar a sua própria ideologia, a sua visão de mundo, como sendo universal, como sendo verdadeira para os demais setores da sociedade (e, portanto, como não sendo mais uma ideologia). No maior grau possível, sua visão de mundo e o projeto político que ela encerra, têm de representar uma espécie de consenso da nação. Assim ela exerce a direção das demais classes (ou da maioria, ao menos).

Uma classe, ou bloco de classes, é hegemônica quando reúne essa duas condições, domínio mais direção, já que, isoladamente, nenhuma delas é suficiente para assegurar a estabilidade da sua supremacia.

O conceito de ditadura do proletariado já continha essa idéia, como se pode verificar em diversos escritos sobre os intelectuais, de Lênin. Mas é claro que foi Gramsci quem melhor explicitou a relação dialética entre esses dois elementos de domínio e direção, abrindo a perspectiva de um aprofundamento do caráter democrático da hegemonia da classe operária no socialismo. Pois, nas sociedades capitalistas mais modernas, ele realçava a necessidade de aprofundar a luta ideológica, de "ganhar" as classes aliadas ao operariado fabril, ao invés de privilegiar os aspectos militares (que seguem sendo uma realidade) e as conseqüentes opções golpistas que ocorrem estar associadas a concepções estritamente violentas.

Voltemos, então, à hegemonia. É evidente que além do poder de coerção - que no plano interno das nações modernas é cada vez menos importante  nota atual Frágil avaliação; na verdade os instrumentos de coerção das populações vêm se aperfeiçoando, se sofisticando cada vez mais e tendem a se tornar praticamente onipresentes, tendo ganho um enorme impulso depois dos atentados às torres gêmeas de Nova York. (pois no plano internacional ele é absoluto, com "guerra nas estrelas" e o diabo) – a estabilidade do capitalismo e da burguesia estão fundamentalmente baseados na sua capacidade de apresentar-se como o melhor regime possível, o sistema das liberdades individuais e da fartura de bens de consumo. Não importa que essas liberdades efetivamente não existam no grau em que são apresentadas; que elas sejam limitadas seja por um alto nível de repressão e de fragilidade institucional, nos países ditos do Terceiro Mundo, ou pelo poder extraordinário dos grandes grupos econômicos, por trás de todas as instituições que produzem conhecimento - ou melhor, ideologia - como as escolas, a imprensa, a televisão, etc. Não importa, também, que à alegada fartura de bens de consumo corresponda na verdade uma enorme miséria, seja nos países espoliados pelo imperialismo ou mesmo nos enormes bolsões de pobreza absoluta que se encontram até nos países mais avançados do capitalismo.

O que importa realmente, no sentido de que a burguesia consiga manter a sua hegemonia sobre as demais classes sociais, é a sua capacidade de apresentar - e convencer estas últimas de que seu regime é o melhor possível. O que importa é que o senso comum da população (antigamente se diria das massas) esteja impregnado e convencido dessa idéia; que, nos mínimos detalhes do cotidiano, o capitalismo esteja se reproduzindo diariamente, na "naturalidade" com que se encara o ato da venda da força de trabalho (como se não houvesse outra possibilidade), na manutenção das "tradições" dos poderosos, da "superioridade" do homem sobre a mulher, do branco sobre o negro, etc, etc, etc. Isso é a capacidade de direção, isso é o complemento indispensável da força, para se dizer que o capitalismo e a burguesia são hegemônicos: sua ideologia é universalizante, fazendo parte inclusive do senso comum das massas.

Como dissemos anteriormente, a ideologia é um conjunto de valores (hábitos, costumes, tradições, preconceitos, etc, até teorias). A capacidade de universalizar, de generalizar para as demais classes a sua ideologia é dada pelas instituições, que Gramsci chamou de instituições valorativas, porque estão, justamente, ligadas à difusão de valores. Os franceses  nota atual Generalização apressada; eu estava me referindo a Althusser, muito em moda naquela época. se apressaram em chamar essas instituições de aparelhos ideológicos. E, se quase todas as instituições exercem esse papel de disseminar a ideologia da supremacia burguesa, em maior ou menor grau, é claro que algumas dentre elas saltam à vista pelo seu caráter mais "especializado", pela sua função mais imediata e obviamente idológica: a Igreja (ou igrejas, já que as seitas americanas invadem hoje a periferia das grandes cidades e as babaquices de tipo indiano conquistam parcelas da juventude pequeno-burguesa), o sistema educacional, a imprensa e todas as entidades que compõem a chamada indústria cultural.

Para quem acredita, então, que as classes sociais competem entre si pela supremacia na sociedade - a "vulgarmente" chamada luta de classes - é óbvio que as classes lutam não apenas pela capacidade de domínio, mas também pela possibilidade de direção da sociedade. E que, portanto, essa luta não se dá apenas no plano econômico e político - ou militar - mas também no plano ideológico. O terreno, a arena da luta de classes não é constituído apenas pelas frentes sindicais e partidárias mas, com igual importância, pela frente ideológica ou cultural.

Na mesma medida em que as classes sociais concorrem entre si para se apropriar do Estado, também competem - e Gramsci deseja identificar esse processo e torná-lo consciente - pela influência na sociedade civil. A disputa por ambas as funções - de domínio e de direção - é igualmente importante, é inseparável e concomitante. A separação dos elementos ideológico e/ou político compromete, inclusive, a própria direção dessa luta.

Daí que as classes sociais subalternas, que disputam com a burguesia a supremacia na sociedade, sob a liderança da classe operária, sempre que organizem sob sua direção instituições valorativas, vulneram e até impedem a supremacia burguesa. Na mesma medida, situam e isolam o próprio aparelho estatal, tornando viável a sua apropriação. De certa forma, nesse processo, a classe operária forja as superestruturas do seu poder futuro. Isto é, vai construindo as instituições que serão o canal para o exercício da sua hegemonia, o que é, ao mesmo tempo, condição indispensável para o seu triunfo enquanto classe.

Além do mais, as instituições sociais não são todas originárias do domínio burguês, e é possível fazer uma extensa listagem de, digamos, contra-instituições, a serviço da classe operária e seus aliados, como o partido político operário, por exemplo. Mas também o são um teatro nacional popular, escolas ligadas à formação de quadros sindicais, o próprio sindicato autônomo do Estado e - aonde queríamos chegar - os cineclubes.

Dessa maneira a gente pode chegar a uma definição do que seja cineclube. Uma definição não estreita nem sectária, que é capaz de compreender as inúmeras formas diferentes em que os cineclubes se constituem na realidade, sem reduzi-las a uma receitinha dogmática. Uma definição que comporta uma compreensão do papel estratégico que têm os cineclubes, sua função histórica, política, social e cultural.

Cineclube, portanto, é uma forma de organização do público que visa resgatar à ideologia dominante - organizada e expressa pela forma tradicional do cinema comercial - sua influência de dominação, constituindo-se como uma instituição privada de hegemonia a serviço das classes populares, forjando, desde já, a superestrutura do poder futuro na organização do processo de comunicação. Construindo desde já uma nova relação entre o público e o cinema, e um novo cinema, que advém exatamente dessa nova relação do público com a arte.

Compreender o cineclube, vale dizer, o cineclubismo, principalmente a partir da sua evolução histórica - nos últimos 60 anos - é perceber que ele é também um movimento em evolução dialética. Nesse sentido, mesmo hoje a gente pode observar muitas das formas de cineclube que foram, em outras épocas, as formas mais comuns, as formas dominantes daquela época. E desde as formas mais "primitivas", menos conscientes do seu papel histórico e cultural, os cineclubes já continham dentro de si as contradições que os fazem evoluir no sentido de realizar plenamente sua condição de contra-instituição, de aparato social não mais de dominação ideológica, mas de realização integral do conhecimento na relação democrática do público com a obra cinematográfica (ou videográfica, ou televisiva, ou o que seja).

Os primeiros cineclubes surgiram como uma reação mais ou menos espontânea à excessiva padronização que a monopolização do cinema ia instituindo. Eles estavam cheios de ilusões sobre a "sétima arte", sobre "o belo" e coisas assim. Contudo, ainda assim, eles já nasceram como uma organização sem fins lucrativos - o que os separava radicalmente dos valores de mercado -, já nasceram baseados numa estrutura coletiva e democrática (em maior ou menor grau, mas sempre democrática) e já nasceram com uma clara disposição de se contrapor ao poder monopolizado e alienador do cinema comercial, valorizando as obras que não encontravam distribuição no mercado comercial ou que eram alijadas por motivos estéticos, políticos, etc.

Dessas características de todos os cineclubes: a econômica, que os distingue da iniciativa capitalista; a política, que os organiza de maneira democrática, e a ideológica, mais variável, mas que sempre os coloca fora ou contra os poderes econômicos ou políticos - dessas características decorre o caráter dialético da estrutura do cineclubismo, que sempre os impulsiona a resolver suas contradições. Em outras palavras, se um cineclube, por exemplo, se fecha num grupinho que tende a moldá-lo num certo sentido, estético, político, o que seja, sempre haverá a possibilidade de se obter a adesão de mais associados e inverter, no voto, a situação. É claro que isso nem sempre acontece, que freqüentemente os cineclubes nem sequer consolidam a sua organização interna de maneira a consagrar essa característica democrática. Mas, no transcorrer da sua história, a maioria dos cineclubes - e o movimento, enquanto tendência histórica e social - obedeceu a essa progressão, em que as formas mais avançadas foram superando as mais atrasadas.

Conceber, portanto, o cineclube como uma instituição privada de hegemonia a serviço das classes populares, corresponde ao momento atual e só foi possível após a superação de décadas de elitismo e de pelo menos uma década também, de instrumentalização e aparelhismo, além de inúmeras outras formas de cineclubismo menos cotadas.

Felipe Macedo