Autocrítica, atendendo a pedidos

"Je me rappelle très bien du jour de 1961 (c'était juste après la Baie des Cochons), où quelques jeunes fayots sont venus me proposer un hommage public pour fêter la victoire. Te voy a contar mi respuesta en espaniol, ya que pareces entenderlo bien: " Aqui lo que se hace falta no son homenajes, sino trabajo. Ustedes se consideran revolucionarios? Bueno, entonces les buscaré un puesto de lucha... en alguna fabrica. En cuanto a los honores, se los agradezco, pero les voy a responder en francés, que es mas educado, para no ofenderlos: les honneurs, ça m'emmerde!"  nota  "Eu me lembro muito bem do dia, em 1961 (foi logo depois da Baía dos Porcos) em que alguns jovens puxa-sacos vieram me propor uma homenagem pública para festejar a vitória. Vou lhe contar a minha resposta em espanhol, já que parece que você entende bem: "O que falta aqui não são homenagens, mas trabalho. Vocês se consideram revolucionários? Bom, então vou arranjar uma luta pra vocês… em alguma fábrica. Quanto às honras, agradeço a vocês, mas vou responder em francês, que é mais educado, pra não ofendê-los: estou me lixando ("emmerder", que Guevara usou em francês, é um pouco mais forte que o nosso "se lixar", mas também não seria propriamente correto traduzir simplesmente por uma expressão de baixo calão. Nesse hiato reside a ironia do Che) para honras!" Che Guevara.  – Che Guevara

Um velho amigo, que também parece gostar de expressões antigas, insistiu muito para que eu fizesse uma autocrítica. Apesar do sabor meio demodé e de uma certa conotação de expiação stalinista – ou religiosa, uma coisa meio de autoflagelação – que o termo tem para mim, acabei considerando que a provocação podia até ser uma boa oportunidade para repensar algumas idéias, propor uma discussão que não tem sido muito praticada nestes poucos meses de neocineclubismo, como alguns querem chamar este momento de possível reativação do movimento de cineclubes no Brasil.

Mas por que eu, cara pálida? Tantos cineclubistas de outros tempos aí à disposição… E todo mundo trocando homenagens, carinhos, até juras de amor. Bom, eu confesso – ops! – que essa meiguice toda me entedia um pouco, que essa pretensa unanimidade tão afetiva me parece mais postergar a discussão sobre o cineclubismo, que deveria ser constante, ou mesmo abafar ações e projetos que são postos em andamento sem o crivo da crítica mais ampla do conjunto dos interessados.

Meu velho amigo me disse que eu havia defendido teses que influenciaram o movimento cineclubista e não deram certo, por isso a autocrítica. Mais útil talvez ouvir nossos adversários de então, que estão quase todos aí, e cujas teses talvez tenham dado certo, já que aparentemente nada têm a explicar – e digo isso apenas pela argumentação, porque não estou interessado em meas culpas, mas apenas nas teses, velhas ou novas, que quisessem ou que pudessem eventualmente trazer para o Movimento.

Talvez por gostar tanto de cinema, por ter visto muito desenho animado, meu velho amigo ache que o fato de algumas idéias não terem ainda se tornado realidade significa que elas "não deram certo". É nos desenhos animados que o personagem tenta um truque e depois nunca mais repete a mesma coisa, nunca insiste, parte pra outro esquema. Se não, não tinha graça.

Na realidade é diferente, eu acho. Por exemplo, eu não acredito que a falência de quase todos os Estados socialistas implique no fracasso do socialismo. Ou que a atual fase triunfante do capitalismo demonstre que ele é a única alternativa para a Humanidade. No entanto, a maioria dos produtores de desenhos animados acha isso. E temo que alguns cineclubistas também.

Eu não, admito. Eu acho que a gente tem que recomeçar sempre, tentar de novo, e de novo. Estar aberto às mudanças, aprender com os erros, adotar o que é novo – em instrumentos, técnicas, ações – mas para agregar, somar, atualizar a experiência histórica e coletiva. Experiência é justamente isso: a soma, a incorporação ininterrupta de coisas novas a um repertório permanente mas não imutável.

Desconfio da rejeição automática da experiência, quase tanto quanto do apego irrefletido ao passado. Há muita gente nestes novos tempos de cineclubismo que, na prática, quer jogar fora a experiência passada dos cineclubes. Entre elas há certamente os que sempre pensam destruir o passado como precondição para construir o futuro – tipos que, ironicamente, não têm nada de novo e surgem a cada nova geração, repetidamente, há já muito tempo. Mas talvez haja também outros com receio do que possa ser aproveitado da experiência cineclubista, muitas vezes extremada demais para certos gostos, por seu conteúdo contestador e radicalmente democrático. Podem existir ainda aqueles a que, por temor ao escrutínio da sua própria responsabilidade em determinados momentos do nosso passado, interessa passar rapidinho pelo tema. E os que querem partir logo para os finalmente, isto é, distribuição de cargos ou verbas. Ah, sim, e os que, em nome de seus nobres ideais selecionam, "editam", como um filme, a História, como um mero instrumento para a consecução de seus nobres objetivos. Ou diversas composições entre essas alternativas.

Mas constatar isso tudo nesta minha generosa autocrítica, não se confunde com a recusa em compreender o que efetivamente mudou, o que realmente tem que mudar.

Meu velho amigo disse que eu defendia a tese de que os cineclubes iam ocupar o lugar do cinema comercial – o que é verdade, eu reconheço – e, como se pode bem ver, mais parece que os cineclubes é que se deram mal, que o cinema comercial é que ocupou os espaços onde os cineclubes atuavam. E vou abrir meu coração: eu dizia até que o cineclube era o embrião da transformação da relação entre o público e o cinema, entre o espectador e a obra, veículo de superação da alienação e da divisão entre o homem e o artista. Ufa! E nada disso aconteceu.

Vamos então à contrição: é verdade que uma onda irresistível de capitalismo parece varrer todo o planeta, incorporando à economia privatista não apenas os países do antigo campo socialista, mas igualmente transformando profundamente os países de capitalismo mais periférico, privatizando, concentrando, até ocupando militarmente ou simplesmente pilhando as nações mais atrasadas. Concomitantemente, essa vaga capitalista também se infiltra verticalmente, mudando as relações sociais, o trabalho, os comportamentos. Isso tudo está muito ligado ao surgimento de amplas e profundas inovações tecnológicas (a par, claro, da incapacidade que o mundo socialista demonstrou, de sustentar o mesmo nível de investimento militar) que modificaram substancialmente as formas de produção, gestão, comunicação, etc, e influenciam cada vez mais o consumo, os costumes e comportamentos.

No Brasil essas mudanças coincidiram com a transição democrática e a reestruturação do modelo econômico. E o cinema foi uma das áreas mais profundamente atingidas, não apenas com a conversão do modelo da Embrafilme para a renúncia fiscal, mas com a transformação completa do mercado exibidor e, last but not least, o desaparecimento dos cineclubes.

Mas essa maré, ainda que tenha proporções de tsunami – principalmente, talvez, porque estamos submersos em meio ao seu pleno desenvolvimento – não passa de uma vaga, como outras que se sucedem periódica e incessantemente no ambiente irrequieto da História. Aliás ela parece se seguir a outra perturbação que também expandiu o capitalismo, varreu as formas de comunicação e "encolheu" enormemente o Mundo: foi há pouco mais de cem anos, num período de menos de 50 anos em que surgiram todas as formas modernas básicas de comunicação, do jornal diário ao cinema, da fotografia ao disco e ao rádio. E aquela onda precedeu a mais forte torrente revolucionária que o planeta já conheceu – e que também passou…

Mas eu estou divagando, e esquecendo meu ato de penitência. Voltemos às idéias que não dão certo. Meu velho amigo provavelmente viu, no relativo sucesso dos cineclubes em 35mm entre os anos 80 e 90, um sinal de que estávamos ocupando o espaço do cinema comercial. Foi um fato. Mas ocupar espaço não pode ser confundido com "substituir" o cinema comercial – uma visão de muito mais largo prazo – já que este último sempre controlou os dois aspectos mais essenciais do processo: a produção e, principalmente, a distribuição.

De fato, relendo um texto meu de 20 anos atrás, vejo que eu defendia os cineclubes 35mm (de críticas que talvez também dessem saborosas autocríticas hoje em dia) pelo espaço que eles ocupavam, mas também como um recurso para nós mesmos criarmos algumas condições de auto-suficiência econômica, diminuindo nossa dependência do Estado e fortalecendo instituições como a Dinafilme; como defesa das entidades que atuavam em 16mm e, igualmente, como uma etapa para que nos capacitássemos para as novas tecnologias que estavam sendo introduzidas no País: "A formação desses novos cineclubes abre uma nova etapa no cineclubismo brasileiro… Dentro da proposta do movimento cineclubista, esse novo nível de organização corresponde a uma forma de captação de recursos para a própria manutenção da bitola de 16mm e, de certa forma, para permitir o tempo necessário para que o movimento desenvolva e amadureça sua experiência em vídeo" (Manual do Cineclube, Felipe Macedo, 1985).

Como num desenho animado, o plano não deu certo. Aparentemente deu tudo errado. Os cineclubes 35mm se afastaram do movimento. Concomitantemente, o restante dos cineclubes também entrou em crise e praticamente deixou de existir. Isolados, e não mais constituindo uma proposta cultural orgânica, os cineclubes 35mm foram gradualmente eliminados ou assimilados pelo modelo comercial dominante.

Mesmo assim, essa assimilação capitalista, talvez mantendo nossa rica tradição antropofágica, resultou na incorporação de diversas características cineclubísticas, com conseqüências culturais nada desprezíveis. Creio mesmo que o Brasil pode ser o único país a ter empresas exibidoras como o Grupo Estação e o Circuito Unibanco, que mantêm mostras de cinema de vanguarda, desenvolvem importantes atividades educacionais e estimulam várias iniciativas cineclubistas. Até sessão na praça, que a bem da verdade não é bem uma exclusividade cineclubista, mas uma atividade oriunda de um comércio primitivo, meio "Caravana Rolidei", parece que está na moda. Até a Cinemark adaptou o conceito, verdade que para o ambiente mais chique do Jockey Club.

Mas nada disso alterou, nem antes nem agora, o domínio quase absoluto que tem o capital cinematográfico, Hollywood, sobre o cinema mundial. O que não quer dizer, também, que a idéia de suplantação desse modelo não deu certo. Na verdade, o importante refluxo que atingiu o cineclubismo em todo o mundo parece estar mais ligado às transformações trazidas pela chamada globalização — que no Brasil assumiu, grosso modo, os aspectos aqui descritos.

A superação do caráter alienante do cinema comercial, engendrada em seu próprio bojo e sob forma consciente com e desde o surgimento do cineclubismo, será o resultado da confluência de duas condições: o paulatino esgotamento e obsolescência do seu modelo econômico face às novas tecnologias (cujo caráter revolucionário consiste na interatividade), e a capacidade do público de formular claramente um projeto que o substitua. É evidente que tudo isso deve se dar no contexto mais amplo de superação do próprio modo de produção, uma vez que o cinema, ou mais genericamente a comunicação através de imagens, é uma parte cada vez mais importante do processo de reprodução do capitalismo. A recíproca, porém, é igualmente importante: a troca "meramente" política (sem a criação de uma nova superestrutura ideológica e cultural) dos sistemas de governo – como demonstrou a experiência de 70 anos de uma forma de socialismo – não é suficiente para alicerçar uma nova base de convivência entre os homens.

Meu velho amigo deve compreender que o que aconteceu com o cineclubismo brasileiro – com ou sem as "minhas idéias" – em meio à barafunda da última década do século passado não foi uma gag de desenho animado. Estava mais para um episódio meio inicial de um longo seriado que talvez – e bota talvez nisso – esteja entrando em capítulos decisivos.

Porque se o cinema comercial soube se apropriar de algumas boas idéias dos cineclubes, estes últimos voltam agora com um arsenal renovado e ampliado. Considerando apenas a situação brasileira, os cineclubes têm hoje recurso a alternativas de trabalho que eram completamente inimagináveis há, digamos, dez anos. Há cineclubes capazes de operar em 35mm, num padrão que não está mais ligado às determinantes de mercado que mataram as salas dos anos 90, como o Lanterninha Aurélio, de Santa Maria, no RS. Na mesma bitola, o Cauim, de Ribeirão Preto, SP, fez reviver – leia-se lotar – uma sala de 800 lugares (fato inimaginável neste curto período histórico que ficará marcado pelos multiplexes) com uma perspectiva inusitada: ingresso barato. Mas em Brasília, como no Rio, são vários os cineclubes usando o bom e velho projetor 16mm – e mesmo na praça, mas dispensando o caráter "eventual" ou espetacular de outras iniciativas, e apontando para formas permanentes de organização do público. São Paulo está cheio de cineclubes universitários, imagino que muitos usando VHS e DVD, enquanto que na rede municipal da capital do Estado formigam idéias – e atividades – cineclubísticas, desenvolvidas nas escolas ou nas comunidades que as integram. Até barriga de vaca tem servido de suporte para a ação cineclubista, como contou o Hermano Figueiredo no Encontro de Brasília. E aqui eu me penitencio: essas poucas informações mostram apenas o limitado conhecimento que posso ter do que se passa no Brasil a partir daqui do meu frio observatório nórdico. Mas a Jornada cineclubista do final do ano passado tinha cineclubistas conhecidos, obstinados e incorrigíveis de muitos outros lugares: Bahia, Pernambuco, Sergipe, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná, que eu me lembre… Enquanto o Centro Cineclubista de São Paulo propõe a discussão de novas formas de trabalho digital, diversos sites já fazem circular curtas pelos hiperespaços da vida. É bem verdade que estes últimos não se propõem exatamente como cineclubes, mas alguém duvida de que vai acontecer? De fato, uma certa indefinição quanto a formas e objetivos é ao mesmo tempo uma característica e o desafio desta fase de reorganização – em todo o mundo os movimentos de resistência vivem de diferentes maneiras essa mesma situação – e já seria assunto pra outro artigo, mais voltado para o futuro. E que teria que discutir a aproximação, pra mim bastante visível, entre o cineclubismo que parece desabrochar hoje e o ato de captar imagens, apontando para a eliminação da divisão social e identitária entre realizador e público, entre o artista e o homem. Tal como se vê com o grupo Flô, de Porto Alegre, ou em diversos relatos do pessoal do Centro Cineclubista de São Paulo.

Como sempre, desde Louis Delluc ou Bela Balázs, ainda é na proposta do cineclube, e apenas nela, que se encontram os elementos visando a superação da característica – também essencial – do cinema comercial: a alienação do espectador. Face a todas as variações, diante de qualquer inovação que assuma a exibição, apenas o cineclube propõe e propicia a integração do público como sujeito do processo cinematográfico. Isso independe totalmente do suporte tecnológico, porque é fundamentalmente uma relação social.

Eu não sei dizer como será o cineclube que vai certamente substituir essa forma canhestra de explorar ansiedades, carências, recalques, esperanças, ilusões e desilusões do espectador do começo do século 21. Não faço idéia de como serão produzidas as imagens, quantas dimensões elas terão, como vão se propagar, como vão se trocar – porque troca vai haver, em substituição à unilateralidade desse poder que está aí. Nem consigo conceber que formas terão os ambientes para se desfrutar dessa forma de expressão, mas imagino que serão bem mais amplos do que os espaços limitados pelos ingressos, assinaturas, direitos autorais (que não pertencem aos autores) e outras formas de exclusão e de lucro. O termo cineclube, cunhado bem antes do Fritz Lang filmar Metropolis, poderá até ter desaparecido quando isso acontecer, mas é a essência desse conceito que tem em grande parte alimentado a trajetória do Cinema e onde hoje, mesmo em condições adversas, persevera o espírito de inconformismo e liberdade.

Só me resta concluir, como dizia o "Moribundo" do velho Marquês: "Matem-me ou aceitem-me assim, porque eu jamais mudarei".

E esperar que o meu velho amigo me perdoe.

Felipe Macedo