Espontâneo: voluntário, natural, livre

Biah Werther é combustível, motor, aerofólio, piloto... e um dos membros do Cine8, no mínimo um dos mais vigorosos e criativos cineclubes surgidos nos últimos anos. Partindo de Porto Alegre, RS, suas atividades se espalham pelo Brasil inteiro – oficinas, mostras, happenings, entre outras menos enquadráveis – e mesmo no exterior. Produção, exibição, publicação, ensino... Usando várias linguagens, formatos, suportes, e atingindo públicos diferentes pelo País afora, esse cineclube é sozinho um verdadeiro movimento cineclubista. Que se comunica ininterruptamente através de uma lista de discussão na internet com cerca de 700 membros ativos – creio que a segunda maior rede brasileira de discussão de cinema. Cine 8 é um bólido que ultrapassa a toda velocidade os conformados, os lentos e os mortos, deixando por onde passa uma lufada de inconformismo, renovação e descoberta.

(FM)

Conheci os resumos abaixo (e mais alguns não menos apressados) dentro de um manifesto recente de pequenina parte do movimento cineclubista que, embora tão pouco relevante, merece resposta para que, talvez no futuro, se aprofunde um pouco mais antes de deduzir que o cineclubismo livre e apartidário se trata de cineclubismo apolítico e acéfalo. Equivocado em sua teoria superficial e sem o mínimo de conhecimento do panorama nacional dos anos 90 e início do século 21, o manifesto, entre outras conclusões, nada aprofundadas – que ao invés de unir, dividem tanto quanto distanciam gerações e regiões – detona em relação à geração que veio após a falência do movimento formal: "o movimento... prosseguiu espontâneo e acéfalo, vivendo uma década de iniciativas dispersas e inarticuladas... Há hoje uma larga diversidade de experiências cineclubistas pelo Brasil. Os agentes que as promovem, no mais das vezes, nem sequer intuem a natureza e a profundidade do que estão a realizar..."

A respeito dessa tendenciosa dedução, sem dados objetivos, portanto sem pesquisa, e assinada por uma minoria que não estava conosco nos momentos mais importantes das década de 90 e início do século 21, resolvi me manifestar porque além de ter elementos de uma vivência das ações cineclubistas deste período recente, sou parte atuante do movimento que se configura agora, estando a organizar nossos arquivos nacionais para disponibilizá-los aos que estão chegando somente hoje no Movimento Gaúcho. Então, nos últimos dias tenho estudado estes primeiros passos do nosso movimento nacional e suas variantes. Cada sotaque, cada tempo, andamento, tom e espaço, enfim tudo o que caminhamos, ou não, nestes meses.De resto, nos últimos anos tenho sido parte do movimento que transcende sotaques, gerações, raça, religião e interesses partidários. Sou parte de uma geração que não fez curso de cineclubismo.

Trabalhamos espontânea e intuitivamente para hoje termos a satisfação de aperfeiçoar tudo quanto descobrimos em intercâmbios nesta salutar relação com quem escreveu também a história do cineclubismo no Brasil décadas atrás. Nós, os acéfalos inarticulados das ações cineclubistas dos anos 90 estamos aprendendo e ensinando embora isto pareça passar em branco para uns toscos contadores de histórias retocadas e chavões. Pessoalmente, me incomoda quando desponta dentro do nosso movimento um pequeno grupo cheio das certezas que nós,a maioria – ainda bem – não temos porque estamos nascendo juntos. Criando. Discutindo modelo (ou não-modelo). Juntando novo e antigo numa troca de heranças.

Estas certezas apressadas tentam incorporar um domínio sobre o todo (nós) no sentido de mapeamento e também no que se refere à pluralidade de conceitos e da história recente e bela que tantos de nós temos para contar e que enquanto escrevíamos não os víamos (estes que agora querem interpretar nossas ações como acéfalas). E quem disse que liderança tem modelo? Ainda, estas certezas da minoria me parecem invasivas demais. E contraproducentes porque aquele que quiser falar por todo o movimento incorre no erro da superficialidade da sua análise num sentido amplo e na própria superficialidade de seus objetivos, esquecidos em detrimento da pressa em tomar uma liderança. Liderança perdida entre frases feitas.

Onde está a obrigação de termos responsabilidade e respeito ao interpretar dados e modelos? Ninguém, a não ser a comissão que elegemos, pode falar em nome do movimento. Isso é fato. Então, que cada qual cuide do seu pedaço e o faça bem feito, o que já é de grande valia – se não a única. Mas estas não são apenas reflexões que eu quis trazer porque tenho direito de exigir respeito ao que foi realizado nos últimos anos. Quero dar é um testemunho para que ninguém pense que pode sair avaliando superficialmente obras as quais desconhece porque não estava lá, e muito provavelmente não estava porque nós não tínhamos apoio algum. Porque nos últimos 8, 9, 10 anos, milhares e milhares de espectadores puderam conhecer o cinema independente brasileiro graças às referidas ações inarticuladas e acéfalas, bem como centenas de novos realizadores tiveram incentivo para começar a tirar suas idéias do papel através de históricos intercâmbios entre núcleos de cinema que juntaram forças para produzir, debater e experimentar um cinema crítico e livre.

Estes acéfalos estiveram debatendo os editais dentro das ABD´s, exibindo filmes que não teriam espaço, experimentando através de oficinas e discutindo dentro das escolas e das vilas. Se nenhum de nós pensou naquele momento que seria uma bela idéia nos empregarmos como cineclubistas,foi porque nos interessava realizar, discutir, exibir, difundir e buscar alternativas de fomento para um novo audiovisual, brasileiro. Por isto, espontaneamente, nós cruzamos o país com mochilas cheias de filmes, negativos, fitas, câmeras super 8, fanzines, idéias. E se essas ações designadas por uma minoria que nada fazia neste período em que precisávamos de muita coragem para trabalhar sem nenhuma representação junto ao MinC e aos meios de incentivo e seus critérios corporativistas. Se essas ações eram espontâneas e voluntárias, aí está o VALOR. Porque espontâneo deve ser o Movimento como um todo.

Com coração e sem frases feitas. ES.PON.TÂ.NEO: voluntário, natural, livre. Sério e organizado, aconteceu um movimento apaixonado dos anos 90 pra cá. Voltado para o intercâmbio, para a linguagem, para a cultura, para o Brasil. Surgido da necessidade de mostrarmos nossas próprias produções. Esse movimento espontâneo foi responsável por muitas discussões e soluções para o cinema independente brasileiro, em especial o curta-metragem e às criativas soluções de produção e exibição através das novas tecnologias. Foi intercâmbio para ninguém botar defeito, como nunca se viu em tempos anteriores à internet. Uma linda história que rendeu centenas e centenas de filmes e vídeos e milhares e milhares de livres olhares.

Alguém chamou esse movimento de acéfalo? Pode ser, mas dá licença para que o tempo nos dê chance de escolhermos nossas lideranças? Para todos que tiverem interesse à respeito do que aconteceu dos anos 90 para cá, para quem quiser saber se foram ações verdadeiramente dispersas e inarticuladas, gostaria de me colocar a disposição para contar essa história que eu vivi em grande parte e sei de cor porque ta aqui nas nossas gavetas, nas nossas marcas, nos nossos sonhos e pesadelos. Alguém quer me entrevistar para uma pesquisa real de boa parte do movimento dos últimos anos? Alguém quer dados à respeito desse movimento acéfalo dos anos órfãos de um movimento formal? Alguém quer ficar uma semaninha ao menos aqui pesquisando à vontade o valioso acervo que temos nestes armários que contam a história inarticulada, dispersa, acéfala, sem noção de profundidade? O convite está feito.

BiAH WeRTHer