A vanguarda do atraso

Os moderadores e/ou outras autoridades da lista "cineclubeBR", de propriedade do Centro dos Cineclubistas de São Paulo e do autodenominado Movimento Popular Cineclubista, cassaram um dos inscritos por mandar mensagens cômicas e provocativas, fazendo humor com o que muitos acham caretice e moralismo dessa lista. Até Getúlio Vargas, durante seu governo ditatorial, gostava dos humoristas que o ironizavam. Mas quando pessoas e grupos que se dizem cineclubistas começam a censurar, tornam-se...

a vanguarda do atraso

Eu não tenho nada contra partidos políticos – ou igrejas, ou outras instituições – estimularem a formação de cineclubes. Acredito mesmo que é inerente aos cineclubes exercitar as consciências, promover o espírito crítico, arejar até as mais mofadas estruturas. Pessoalmente posso achar muito enfadonhas as posturas moralistas e demagógicas do Jeosafá; enjoativas as cartinhas com trocas de estudadas gentilezas entre associados de movimentos" nada espontâneos e muito menos acéfalos; triviais as tiradas de "poesia mobilizadora" do Diogo; aborrecidas as citações das Escrituras que um outro "listeiro" nos envia em meio às suas propostas comerciais e/ou culturais. Pessoalmente, posso achar que tudo isso, além de chato, é reacionário.

Mas nosso espaço comum, que denominamos "movimento cineclubista", existe para isso mesmo: para a defesa de pontos de vista, idéias, posições… de certa forma, até de estilos. Se voltarmos a ter jornadas de cineclubes, publicações, entidades representativas – que sejam realmente estáveis – e se criarmos novos espaços comuns com as novas tecnologias – que realmente funcionem – uma de suas principais atribuições será justamente promover esse saudável choque de idéias, através do qual o movimento se ventila e avança.

Mas quando partidos – ou igrejas ou outras instituições – tentam manipular o movimento cineclubista, amarrá-lo aos seus objetivos particulares, sufocar o debate sob um jargão moralista, matar exatamente esse espaço de troca de idéias para impor uma visão única, aí não é possível tergiversar: a essência do cineclubismo está em jogo.

E eu vou continuar denunciando esse golpe, expondo essas manobras, mesmo que cassem minha palavra nos currais do partido, que os maus-caracteres chamem meus textos de difamação e injúria (é a única resposta que souberam dar) e ainda que alguns ingênuos achem que essa briga é "pessoal", não lhes diz respeito.

Eu já vi esse filme antes. Mas o remake é muito pior.

Os que acham que essas questões são pessoais, ou que têm a ver com algum desentendimentozinho de 20 anos atrás, estão fechando os olhos diante da realidade que cresce assustadoramente à sua frente. São os mesmos que - com raras e talentosas exceções - ficam à parte dessa "baixaria" toda, mas deixam que muita coisa fundamental seja encaminhada e resolvida exatamente pelo grupo que protagoniza essa querela e que, sem nenhuma delegação, passou a "gerenciar" diversos aspectos essenciais da Jornada.

Esses "otimistas" ou abstêmios políticos serão surpreendidos por uma jornada de cartas marcadas, com uma "maioria" de "cineclubes" recentemente constituídos mas todos já membros de um "movimento popular". "Popular" esse, que não tem definição, exceto se opor aos "outros", aos mal-educados, aos "burgueses", exatamente como o "movimento" dos feios, sujos e malvados fazia há anos.

Não haverá uma ampla preparação para a Jornada. Uma série de "equívocos", "esquecimentos" e "problemas técnicos" tornou a lista de discussão da Jornada propriedade privada de um grupo; seu dirigente mais visível, com indisfarçável má fé, fatura sobre a ambigüidade da lista e recebe inscrições, "orienta" cineclubes de todo o País, distribui amabilidades, mas também pune "quando precisa", quem destoa dessa ladainha: com base em critérios "morais" de uma subjetividade que faria corar os legisladores da nossa não tão distante Ditadura.

No meio dessa confusão, também mal chegam aos cineclubes as decisões da Comissão que elegemos: as atas das suas reuniões "esquecem" parte do que foi deliberado e a lista da Jornada, que foi decidida há quase um mês, não está realmente funcional. Aliás, se forem ao "site" da 25a. Jornada, verão que as maiores contribuições ao referido espaço não são feitas pelos "organizadores" da Jornada, que não demonstram nenhum interesse – nem o moderador da lista sabe usá-la! – mas justamente por companheiros que têm sido chamados de difamadores.

Alguém percebeu que a ata da reunião da Comissão em Santa Maria traz a proposta de pauta da Jornada? E que há um prazo para fazer sugestões? Que essa pauta está basicamente centrada em criar uma entidade, aprovar seus estatutos e eleger uma diretoria, sem praticamente nenhum espaço para a discussão de um programa de trabalho, de uma política para o cineclubismo?

Nenhum cineclube vai receber com antecedência as propostas de estatutos que serão apresentadas para rápida votação numa Jornada de curta duração. Quem já teve essa experiência sabe que votar estatutos é muito complicado e demorado (isto sem mencionar o Regulamento da própria Jornada). Seria necessário preparar bem e com precedência essa discussão, distribuindo os textos e propostas (porque eles estão sendo elaborados, não é mesmo?) antes da Jornada, propiciando a cada cineclube debater e se posicionar internamente, na sua cidade, antes de mandar seus delegados ao Encontro. Estes já levariam em destaque as questões mais polêmicas, única forma de poder preparar realmente com funcionalidade e democracia uma discussão prevista para levar umas poucas horas. Nossa inserção no universo do cinema brasileiro também não poderá ser mais do que objeto de uma conferência, ou de uma discussão mal-ajambrada num grupo de trabalho com duas horas para se posicionar.

Crônica de uma morte anunciada

Desse jeito não vai haver uma verdadeira discussão durante a Jornada. As grandes questões que dizem respeito à moldagem de um movimento cineclubista consentâneo com o momento brasileiro serão votadas de afogadilho, submersas numa maioria artificialmente construída e sufocadas por uma claque de quadros mobilizados para isso (a "organização" da Jornada limitou a hospedagem a três pessoas que venham de fora de São Paulo; vocês acham que os "cineclubes" paulistanos vão ser igualmente comedidos?)

A direção da entidade que disso resultar será eleita com base em conchavos e não num programa discutido amplamente em todo o País e que recolhesse propostas derivadas das necessidades e experiências locais e regionais. Será provavelmente uma entidade centralizada e com amplos poderes para gerir os pretensos recursos que se espera auferir junto ao governo federal. Na verdade esse é o objetivo principal desse "movimento popular", construído para levar algumas pessoas ao efêmero "poder" no cineclubismo. Já era essa a intenção em Brasília, no ano passado - um encontro sem pauta, organizado originalmente para eleger uma diretoria às pressas e "captar uma verba".

Triste ilusão. Sem programa, sem norte, sem representatividade, essa armação toda será uma festinha particular de curta duração. Só a ressaca da desorganização que dela resultará é que terá efeito duradouro para o conjunto dos cineclubes brasileiros, que terão perdido (mais) uma oportunidade de se organizar num vigoroso, criativo, irreverente e democrático movimento. Isso também já aconteceu: sob essa mesma liderança – marcada igualmente por uma acentuada incompetência prática – o movimento se queimou junto à sociedade e ao Estado e deixou de participar da vida do cinema brasileiro.

Nenhum governo vai entrar nessa "fria". Aliás, já não está entrando. A Comissão só conseguiu se reunir em Santa Maria graças aos esforços de outro notório "difamador", nosso companheiro Pimentel. Onde estão os fundos para o "amplamente discutido" Plano Nacional de Cineclubismo? Alguém lá em cima está hesitando… e não é Deus.

E para a própria Jornada? Podem ter certeza que ela terá muito poucos recursos, a precariedade e desorganização contribuindo para a falta de democracia. O quadro é sombrio.

Desabafo

Eu não preciso ostentar nenhum título. Os filmes em que tomei parte nunca me tornaram "cineasta", nunca menti sobre os cineclubes de que participei. Mas vivi mais de 20 anos de cineclubismo muito ativo, metade deles na direção do nosso movimento, e mais tempo que isso lutando contra a Ditadura Militar, seguido do convívio com a "globalização". Ajudei a fundar cineclubes de todos os tipos, em todos os meios sociais: "fiz" cineclube na periferia pelo menos cinco anos antes que o mais antigo desses "populares" aparecesse; "fiz" cineclube clandestino, cineclube sindical operário. E "fiz" cineclube com 15 mil espectadores de média mensal. O Bixiga nasceu na minha casa, em discussões com o Gouveia. Participei da criação da Federação Paulista, da reorganização do Conselho Nacional de Cineclubes, da estruturação da Dinafilme e da reativação do Secretariado Latino-americano da Federação Internacional de Cineclubes. Estive em 16 jornadas, presidi cinco delas. Participei da redação e da reformulação de incontáveis estatutos, de cineclubes de escola até à Federação Internacional, passando pelo CNC, Dinafilme e federações. Disputei eleições contra tendências as mais variadas, apoiadas ou não em grupos, partidos, ou mesmo igrejas. Eu mesmo abandonei o partido a que pertenci por poucos anos, exatamente porque ele queria meter demais o bedelho na entidade que então eu dirigia (mas não há o menor termo de comparação com a manipulação desse Centro Cineclubista e respectivo Movimento Popular). Briguei com a Polícia Federal, como presidente do CNC – e até vencemos. Quando se trata de cineclubismo, sem falsa modéstia – mas também sem nenhuma jactância – acho que eu vi, e vivi, muita coisa.

Mas eu nunca vi um cineclube, ou uma atividade ligada a cineclubes, censurar qualquer tipo de manifestação (a Igreja fazia isso com os cineclubes católicos, mas nos anos 50). E não me venham com essa de educação, de debate "sadio", o nome que quiserem dar. Faz mais de dez anos que estão trucidando o povo iraquiano em nome da democracia. Exterminaram os índios da América para lhes levar Deus e "civilização". Censura não tem desculpa. Censura promovida por "cineclube"? Não tem nome.

Para mim isso foi a gota d'água. Essa pequena enorme violência apenas vem coroar meio simbolicamente uma série de tramóias, uma longa lista de golpezinhos para ocupar o espaço político do movimento cineclubista. Para no fim reduzi-lo à aceitação dócil dos "bons princípios" do partido ou do seu delegado de plantão, forçá-lo a seguir os modelos "sadios" e "edificantes" de líderes geniais. Em uma palavra: para nos alfabetizar. Não dá mais. Um cineclubismo que emprega instrumentos de repressão? O cineclubismo como instrumento de dominação? Isso não é cineclubismo. É a antítese do cineclubismo!

Eu não escrevi este texto para debater, é mais um desabafo. É a expressão de um choque muito forte ao ver, não um recuo, uma derrota ocasional, mas o ressurgimento de monstros que a própria cultura brasileira parecia ter superado. É a manifestação de uma decepção muito profunda, ao ver aquilo que eu sempre tive como a base mais ampla do cinema brasileiro, como a sede do espírito mais livre, mais inconformado, o principal motor e esperança de permanente renovação do nosso cinema, fornecer espaço para a esclerose intelectual, para o autoritarismo, para a reação. O cineclubismo como vanguarda do atraso!

Escrevi este texto como um alerta. Para que os cineclubes verdadeiros, aqueles que realmente existem, os que existiam antes – ou para além – de qualquer interesse do MINC. Não se iludam, mas principalmente não se afastem, não desistam, não entreguem seu espaço por mero cansaço ou desencanto.

Esta Jornada não vai ser um encontro inocente e agradável. Vai ser uma luta difícil e provavelmente desonesta entre uma tendência que pretende instrumentalizar e aparelhar a entidade nacional que gostaríamos de criar e, de outro lado, todos que podem compor um projeto comum mas amplamente diversificado, de compromisso com o cinema, com o cinema brasileiro, com a cultura e a democracia no Brasil. Começando com a liberdade de expressão!

Montreal, 31 julho de 2004

Felipe Macedo