Fiat publicus

Faça-se o público. O objeto da atividade do cineclube é fundamentalmente a relação do público com o cinema, a transformação dessa relação. O cineclube visa superar a relação de alienação, de dominação, imposta pelo cinema comercial – e outras mídias – ao público. Ao reunir alguns textos iniciais para situar a evolução histórica da experiência cineclubista, achei interessante colocar aqui estas notas, escritas há alguns anos, sobre o surgimento do cinema e do seu público. Elas funcionam também como uma espécie de introdução para o texto seguinte, O Nascimento de uma Outra Noção.

O cineclubismo é, fundamentalmente, expressão de uma insatisfação. Uma insatisfação com o cinema. Em parte da própria gente do cinema, principalmente do público.

Cinema, como é óbvio, é projeção. Ele existe na tela, diante do público. Por isso acho interessante que recuemos um pouco para situar como o cinema encontrou seu público.

Vivemos uma época muito especial, em que o ritmo das inovações tecnológicas transforma nossas vidas numa velocidade até difícil de acompanhar, de compreender. Este processo vertiginoso, que altera valores e comportamentos, modifica o modo de vida cotidiano, tem suas bases principalmente no final do século retrasado e no início do século XX.

Embora os primórdios do capitalismo moderno se situem muito atrás, foi apenas no século XIX que as relações propriamente capitalistas passaram a realmente integrar a vida cotidiana. Antes, as formas de consumo, de comer, vestir e até de se divertir, da grande maioria da população, eram derivadas do campo, muito parecidas ainda com os costumes feudais. A cultura do dia-a-dia era pré-capitalista. É só no decorrer do século retrasado que as pessoas passam a usar roupas e alimentos manufaturados e, na segunda metade, começam a conviver com múltiplas invenções e indústrias que modificam o transporte, a informação, a comunicação, o lazer. De certa forma, foi um momento de maturação do capitalismo que, em poucas décadas, "desovou" uma série de inovações, decorrentes da aplicação generalizada de seus métodos de compreender e modificar o mundo. Foi, também, o nascimento das bases da indústria cultural que, em última instância, dá forma à nossa maneira atual de nos comunicarmos.

Foi nesse relativamente curto período que surgiram os jornais diários, o telégrafo e o telefone, a fotografia e o cinema, a reprodutibilidade do som, os discos e mais tarde o rádio. Muito mais do que geniais invenções de espíritos iluminados, esses avanços decorreram do próprio desdobramento de princípios gerais desenvolvidos anteriormente e foram rapidamente sendo aperfeiçoados e colocados em uso nesse momento particular. Estavam mais para tecnologia que para Ciência. O que não lhes retira mérito e, muito menos, importância: transformaram mais o Mundo do que os milênios anteriores. Foram uma espécie de Revolução Cultural, fruto de um processo de gestação centenário da própria Revolução Industrial.

Faço essa referência também porque quero lembrar que, freqüentemente, "inventava-se" coisas sem ter clara a sua utilidade. O uso, que lhe dava o público, é que acabava determinando o papel que teriam na sociedade. O gramofone, por exemplo, foi originalmente concebido para ser uma máquina de escritório, uma espécie de ditafone; e acabou dando origem à moderna indústria de discos.

Kinetoscópio O cinema é um exemplo excelente. Por toda a segunda metade do século, novos experimentos faziam avançar a procura pela reprodução do movimento. Como nos casos das outras invenções, também a cada novidade se procurava encontrar uma forma de comercializá-la. Não é à toa que um dos epígonos dessa era seja Thomas Edison, dublê de inventor e tubarão da indústria. Diversos aparelhinhos de nomes divertidos, como Omniógrafo, Phenakitiscópio, Kinetoscópio, vão marcando a evolução até o Cinematógrafo dos irmãos Lumière. Muitos deles iam para feiras e mafuás, como uma espécie de fliperama da Belle Époque. Edison, mais previdente, criou uma cadeia de diversões onde com uma moeda podia se colocar o olho numa máquina que rodava um filmezinho: eram as Penny Arcades.

Menos afinados com a "modernidade", mas bem mais refinados culturalmente (o que iria lhes custar bem caro), foram os franceses que chegaram à forma mais adequada de apresentar as imagens em movimento, em 1895. Nos anos imediatamente seguintes, seria ainda na Europa, e particularmente na França, que surgiriam as maiores contribuições para o desenvolvimento da nova linguagem que o cinema tinha criado: introduzindo noções teatrais na narrativa (Film d'Art), criando os "truques" essenciais para pontuar o novo idioma (Méliès), etc. Mas a França era muito sofisticada, Paris oferecia diversas formas "cultas" de entretenimento. A nova invenção era uma máquina de prestidigitação, uma diversão ligeira e meio vulgar, apresentada como uma mera curiosidade nas feiras populares. Coisa de pobre.

Sala Nickelodeon Mas pobre justamente, o vulgo, o povo, era o centro das preocupações no Novo Mundo. Na virada do século, as grandes cidades dos EUA tinham de 30 a 50% de sua população formada por imigrantes, a maioria vinda dos países mais atrasados da Europa. O inglês era uma língua nova que muitos não dominavam e eles não tinham um eixo referencial para se encontrarem como sujeitos de sua própria existência na sua nova vida.

Em 1908, um sujeito abriu a primeira sala fixa com apresentação ininterrupta de filmes. Filmes mudos, a linguagem era a pantomima, de compreensão universal. Filmes curtos, simples, retratando pequenos dramas e passagens da vida cotidiana. O ingresso custava um níquel (dez centavos). Em um mês, o tal sujeito ganhou dinheiro para abrir mais 40 nickelodeons (teatros do vintém), em diversas cidades. Na metade da década seguinte os EUA tinham 16.000 salas de cinema - e controlavam o próprio Cinema.

Lillian Gish (1893-1993) em O Nascimento de uma Nação, de DW Griffith (1915) E o Cinema havia encontrado seu lugar. Estabelecida a relação com o público, a linguagem passou a evoluir junto com o amadurecimento da própria audiência – mediada, é claro, pelas necessidades das empresas. Os temas adquiriram mais consistência, começaram a definir-se gêneros, intérpretes faziam sua fama; os filmes ganharam em elaboração e duração (Griffith), até chegarem ao padrão estabelecido pela indústria, de programas de cerca de duas horas.

O Cinema era uma arte com uma linguagem madura e própria, no final da segunda década do século. Também como negócio havia amadurecido: a criação da Motion Pictures Producers and Distributors of America, em 1922, marca a consolidação do poder das grandes produtoras e de seu controle do mercado. A primeira atribuição da MPPDA foi a determinação de padrões para seus produtos, definindo limites estritos para formato e conteúdo. William H. Hays criou o mais famoso, completo e duradouro Código de Censura – dito Código de Produção – da História do Cinema, que regularia os "costumes" e a "moral" nos filmes até 1966.

Outra atribuição essencial da Motion Pictures era a sistematização e defesa das ações comerciais da indústria no Exterior. Além de terem aproveitado como ninguém a oportunidade de explorar em profundidade as potencialidades do cinema, outro mérito que não faltou aos americanos foi perceber o papel que o cinema teria para divulgar, vender e impor o gosto, o way of life, os produtos e a política de seu país no resto do Mundo. Em 1916, o presidente Woodrow Wilson já declarava: "Aonde for o nosso cinema irão os nossos produtos".

No Brasil o público não teve a mesma oportunidade de influir no desenvolvimento do nosso cinema. Houve inicialmente um namoro prometedor, mas o rolo compressor do cinema americano, como em todo o Mundo, interrompeu esse relacionamento, impondo outro cônjuge: ele mesmo. Embora as primeiras imagens tenham sido filmadas em terras brasileiras já em 1898 e, no início, as perspectivas de industrialização fossem prometedoras, esse interlúdio do cinema brasileiro com seu público terminaria ao final da primeira década do século XX.

Tal como na Europa e EUA, os aparelhinhos de nomes estranhos trouxeram primeiro a novidade. Em 1907, com o começo da eletrificação das grandes cidades, tornou-se possível a criação de salas permanentes. Exibiam-se fitas de diversas origens, refletindo a disputa de mercados das produtoras européias (Pathé, Gaumont, UFA, entre outras) e americanas. Mas as histórias locais, com destaque para grandes crimes que abalaram a sociedade, disputavam com algumas vantagens a preferência popular. O cinema brasileiro sempre foi o preferido do público, mas até 1912 era o preferido no mercado também. A situação na Europa, que precedia a I Guerra Mundial, e principalmente a consolidação da indústria americana, definiram a vitória desta última que, a partir de 1912, torna-se absolutamente hegemônica no Brasil, fechando, igualmente – e definitivamente – o espaço para a exibição da produção nacional.

Felipe Macedo