O nascimento de uma
outra noção

Um brevíssimo resumo do início do cineclubismo. Mostra que, em linhas gerais, os grandes objetivos do movimento estiveram presentes desde o seu surgimento

Já na segunda década do século passado, a insatisfação com os modelos rígidos e etnocêntricos estabelecidos pela indústria cinematográfica, a decepção com a sujeição absoluta dos realizadores aos ditames dos chamados Estúdios, a revolta com a Censura onipresente, e a preocupação com a afirmação de cinemas nacionais, que retratassem outras culturas e modos de vida, levou muita gente, em todo o Mundo, a procurar alternativas.

Por aqui, já em 1917, alguns alunos do Colégio Pio Americano se organizaram para freqüentar juntos os cinemas Íris e Pátria, no Rio de Janeiro, e depois debater os filmes. Liderados por Adhemar Gonzaga e Pedro Lima, parece que se reuniam na casa de Álvaro Rocha, um colecionador de filmes, numa prática que certamente podemos definir como precursora do cineclubismo. Gonzaga é um nome fundamental para o nosso cinema, produtor e estimulador de talentos, criador da Cinédia, diretor, autor. Junto com Pedro Lima, fundou a primeira revista brasileira de cinema, Cinearte, em 1926, que seria publicada até os anos 50.

Mas foi na França, onde tudo havia começado, que essas insatisfações encontraram suas primeiras formas de expressão. Em 1920, o cineasta e crítico Louis Delluc cria o nome cineclube lançando, em 14 de janeiro, o semanário Le Jounal du Ciné-Club, ou simplesmente Ciné-Club.

Essa publicação, de fato, cristaliza preocupações de um amplo grupo de realizadores que militam por um cinema de qualidade, livre das injunções do poder econômico e a favor de uma atividade de crítica autêntica. A revista pretendia estabelecer um diálogo entre os cineastas e o público, organizando, também, manifestações pelo desenvolvimento do cinema francês. Em junho de 1920, no cinema parisiense Pépinière, um primeiro grande encontro reúne os grandes nomes da época, como André Antoine e Émile Cohl. Depois de um ano, Ciné-Club pára de ser publicada, mas é substituída - ainda por Delluc - por Cinéa, considerada a primeira revista francesa de reflexão sobre o cinema. O nascimento e organização de uma imprensa especializada, consciente de seu papel tanto estético como social, em toda parte, está diretamente ligado ao desenvolvimento do cineclubismo. Da mesma forma que, mais tarde, vai acontecer com os Arquivos de Filmes, ou cinematecas, que em quase todos os países do mundo evoluíram a partir de cineclubes. A Cinemateca Brasileira, oriunda do Clube de Cinema de São Paulo também não é exceção.

Outros grupos se organizam, simultânea e paralelamente ao movimento da Avant-Garde, reunindo, entre outros: Ricciotto Canuto, Léon Moussinac, Germaine Dulac, Jacques Feyder. No seio desse movimento, quem vai dar posteriormente (1926) o tom social é o brasileiro Alberto Cavalcanti, com seu Rien que les Heures. Também a luta contra a Censura torna-se bandeira do cineclubismo: em 1927, o Ciné-Club de France exibe O Encouraçado Potenkim, que estava proibido (No Brasil, também, o filme só chegou graças ao Chaplin Club e, ironicamente, ainda seria um grande "sucesso" clandestino nos cineclubes estudantis dos anos 70). Cartaz do filme de Bernardo Bertolucci - Novecentos (1976)

Em 1928, retornando de Moscou, Léon Moussinac funda, com Jean Lods, Georges Maranne e Paul Vaillant-Couturier o primeiro cineclube voltado para um público maciço e engajado na luta social: Os Amigos de Spartacus traz, para um tão numeroso quanto inesperado público, os grandes nomes do cinema soviético. Em menos de um ano, sob pressão do chefe de polícia Chiappe, o cineclube foi fechado. Mas essa tendência proliferou, nos anos 20, com organizações como a Volksfilmbühne e a Volksfilmverband, na Alemanha; a Federation of Worker's Films Societies, na Inglaterra; a Worker's Film and Photo League, nos EUA; o Camera Club dos Trabalhadores do Japão. E particularmente na obra do húngaro Bela Balazs, o primeiro a desenvolver a crítica sistemática do cinema como mero entretenimento.

Os cineclubes se multiplicam. Em 1929 é fundada a primeira federação de cineclubes e também é realizado o primeiro Congresso Internacional do Cinema Independente. A principal preocupação do Congresso é criar uma forma autônoma de distribuição e exibição. Entre seus objetivos principais estão "organizar uma Liga de cineclubes, com sede em Genebra, para coordenar e facilitar a ação dos organismos que lutam pela exibição do filme independente" e "criar uma Cooperativa Internacional do Filme Independente, com sede em Paris, destinada a produzir filmes que, com a distribuição assegurada pela Federação de Cineclubes, poderá manter essa produção livre de qualquer tipo de concessão". A crise econômica, a chegada do cinema falado e várias outras razões contribuíram para que esses ideais nunca passassem da intenção.

Mas o movimento de cineclubes continuou se expandindo, e mais acentuadamente depois da II Guerra. Várias federações nacionais foram fundadas a partir de 1946. Só na França - que, a bem da verdade é um caso bem especial - são sete federações (até os anos 90 pelo menos, que eu saiba), agrupando mais dã 10.000 entidades.

Em 1947, graças principalmente aos esforços de Georges Sadoul, Secretário Geral da Federação Francesa, e de Thorold Dickinson, da congênere inglesa, surge a Federação Internacional de Cineclubes, então com vinte países membros.

Felipe Macedo