Paulo Emílio e o estudo do Cinema
Este artigo, publicado no número 22 da Revista Estudos Avançados da
Universidade de São Paulo, foi escrito no quadro das comemorações dos 60
anos daquela universidade. Dentro desse objetivo bem preciso, ele nos
remete rápida mas exemplarmente para a trajetória de Paulo Emílio,
demonstrando a importância do cineclubismo não apenas na sua formação,
mas no conjunto da sua prática intelectual e cultural.
(FM)
Os estudos e as pesquisas em nível universitário constituem um
dado relativamente recente da cultura cinematográfica em quase todo o
mundo. Em muitos países, foi na década de sessenta que a ampliação da
cultura audiovisual e a ascensão do pólo comunicações na sociedade
encontraram ressonância na academia. No entanto, a pesquisa do cinema
tem tradição própria, que vem das cinematecas ou mesmo de certo espírito
de cineclube que data da segunda década do século.
A experiência brasileira seguiu este padrão, com a presença de
cineclubes nos anos 20, a fundação da Cinemateca Brasileira, em São
Paulo, nos anos 50, seguida da criação da Cinemateca do MAM do Rio de
Janeiro. As universidades chegam ao cinema depois dos museus e, dentro
delas, os estudantes se antecipam às suas Escolas. Tal é o caso do Clube
de Cinema criado na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, em 1940,
como pólo de estudos e debates, dentro do espírito formador que marcou
tais iniciativas desde o cinema mudo. Entre seus fundadores, a figura
chave é Paulo Emilio Salles Gomes, o estudante de filosofia que trouxe
para a Faculdade a melhor tradição do cineclubismo – em temporada na
França, tomou lições com Plínio Sussekind Rocha, ex-membro do
Chaplin-Club (1928-31), do Rio de Janeiro, principal foco da teoria
cinematográfica do Brasil até então. O Clube de Cinema assinala o pólo
da cinefilia na vida de Paulo Emilio e de seus amigos, dado que talvez
não tivesse a importância que adquiriu não fosse contemporâneo de outra
iniciativa, esta de maior alcance, do mesmo grupo de jovens da
Faculdade: a criação da revista de cultura Clima. Através desta, Paulo
Emilio fez valer seu maior empenho e experiência no debate político,
orientando pontos de vista, além de escrever seus artigos sobre cinema,
contribuindo para ampliar o leque de intervenções e estudos que deu
especial relevo à Clima dentro da crítica brasileira, na literatura, no
teatro, nas artes plásticas e no cinema. Nesse momento, começam a se
configurar as indagações do grupo no plano da história cultural, sua
pergunta pela formação dirigida aos vários setores da cultura
brasileira, seu empenho em consolidar, no terreno do ensaio e da pesquisa
erudita, um espírito de atualização herdado do Modernismo.
Já neste período evidenciou-se a perspicácia de Paulo Emilio, a
visão totalizante da conjuntura que sempre lhe permitiu pensar o cinema
dentro da cultura, inserir a reflexão sobre a imagem nas questões
maiores do século. Mas seus vôos mais decisivos na interpretação do
fenômeno cinematográfico e das relações entre história do cinema e
cultura popular no Brasil ficaram adiados para os anos 50 e 60. Nova
permanência na França, entre 1946 e 1954, completou a formação do
crítico e revelou a maestria do biógrafo – vide os livros sobre Jean
Vigo e Almereyda. O contato estreito com a Cinemateca Francesa refinou o
pesquisador.
De volta ao Brasil, consciente de que a presença de um arquivo
de filmes era condição para levar os estudos do cinema no Brasil a novo
patamar, viabilizando pesquisas e a constituição de uma memória
nacional, Paulo Emilio, juntamente com amigos militantes na crítica,
como Almeida Salles, ou na USP, com Antonio Cândido, funda a Cinemateca Brasileira.
Ganha impulso, a partir daí, o trabalho de pesquisa do cinema brasileiro, mas o salto
maior nesta direção se dá nos anos 60 quando ocorre a articulação entre o esforço museológico
e o trabalho universitário. Nesse sentido, se Paulo Emilio, como intelectual da
geração de Clima, é peça decisiva na afirmação da Cinemateca como centro formador de
pesquisadores em São Paulo, seu esforço de organização do campo se consolida quando
seu estilo de trabalho encontra lugar na Universidade. Ou seja, quando o que se esboçara
no Clube de Cinema como experiência de estudantes da Faculdade, ainda em pleno Estado Novo,
a ela retorna, nos anos 60, de Teoria Literária e Literatura Comparada. Convidado por
Antonio Cândido, Paulo Emilio, a partir de 1966, orienta teses, forma pesquisadores
atraídos de diferentes campos das ciências humanas e das letras. Seu poder aglutinador dá
vida à pesquisa cinematográfica na USP antes que esta formalize o cinema como esfera acadêmica.
Destaco aqui os aspectos de ressonância institucional da ação de
Paulo Emilio, ciente de que tal registro apenas nos dá uma pálida imagem
da sua liderança, do seu estilo de ação, do impacto do crítico sobre
seus contemporâneos, do professor sobre seus alunos e colegas,
seja na Universidade de Brasília, quando da implantação da
revolucionária experiência interrompida pelo regime militar em 1965,
seja na USP, em sua FFCL ou no curso de cinema da Escola de Comunicações e Artes
criado em 1967. A par da força extraordinária de sua escrita que, cada vez mais,
nos encanta e esclarece, Paulo Emilio é presença porque marcou de forma notável
todos os que o conheceram. Singularidade que seus amigos de
Clima captaram e expressaram como ninguém ao traçar o seu perfil. nota atual Ver os textos de Antonio Cândido, Décio de Almeida Prado e Ruy
Coelho no livro Paulo Emilio: um intelectual na linha de frente,
organizado por Carlos Augusto Calil e Maria Teresa Machado
(São Paulo, Brasiliense/Embrafilme, 1986) e o texto de Gilda de Mello
e Souza, Paulo Emilio: A Crítica Como Perícia in O Baile das Quatro
Artes - Exercícios de Leitura (São Paulo, Livraria Duas Cidades, 1980).
Conhecimento, sensibilidade política e rara personalidade
permitiram ao intelectual empenhado na articulação da pesquisa em nível
nacional, esforço de atenção às situações concretas de que resultaram as
sínteses mais argutas de que dispomos, sínteses que, partindo do cinema, iluminaram
aspectos fundamentais da cultura e da formação social brasileiras. Neste sentido,
o que devemos a Paulo Emilio e a seus amigos da Faculdade é a afirmação de um espírito
de pesquisa ao mesmo tempo rigoroso e isento de compartimentações estreitas, capaz
de definir um projeto de longo alcance que fez convergir inclinações particulares
para uma investigação compreensiva da cultura em sua relação mais equilibrada
entre os diferentes aspectos do trabalho intelectual - história, crítica e
teoria. E creio ter evitado, naqueles que formou ao longo dos anos, o
teoricismo, as adesões apressadas à moda, criando, pelo contrário, uma
tradição própria capaz de conferir maior organicidade aos trabalhos, num processo
em que as novas gerações têm procurado fazer jus àquela paixão pelo concreto apontada
por Gilda de Mello e Souza como o traço por excelência de Paulo Emilio.
O crítico de cinema de maior envergadura que o Brasil já teve
define um capítulo da história da Faculdade de Filosofia que assinala,
por sua vez, a contribuição desta aos estudos do cinema. Com a criação
da ECA, o trabalho de Paulo Emilio e de pesquisadores formados
na Cinemateca e na própria Faculdade orientou a implantação de um
departamento que, no plano da pesquisa, dentre suas várias linhas, tem
destacado um trabalho que dá continuidade à experiência iniciada na área
de Teoria Literária.
Ismail Xavier
Ismail Xavier é professor de Cinema da Escola de Comunicações e Artes da
USP, crítico de cinema e autor de vários livros sobre o cinema mundial e
brasileiro.
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